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Reflexão sobre matéria prima alternativa para produção de etanol

Um assunto que está ganhando destaque no setor sucroalcooleiro é a utilização de outras matérias primas para a produção de etanol. Neste sentido vem surgindo as chamadas plantas flex, onde se pode processar cana de açúcar, sorgo e até mesmo milho. A utilização de outras matérias primas pode ser interessante do ponto de vista de diminuir o tempo de entre safra, aumentando o tempo de utilização dos equipamentos existentes (maior utilização dos ativos).

Pensando de uma forma lógica, aumentar o tempo de utilização dos equipamentos existentes passa a ser interessante desde que esta atividade extra, traga retorno financeiro, ou seja, lucro. Partindo deste ponto de vista, foi realizada uma estimativa de custo de produção do litro de etanol utilizando como matéria prima a cana de açúcar e o sorgo. Para tanto, foram utilizadas algumas premissas que podem conter certo nível de imprecisão.

Os custos de produção foram estimados considerando uma destilaria autônoma com capacidade de processar 1.500.000 Ton. de cana / ano. A Tabela 1 mostra os custos para a produção de etanol de cana de açúcar nesta unidade.

Tabela 1. Custos para produção de etanol de cana de açúcar

Considerando uma produção média de 100 ton. de cana por hectare, tem-se que o preço da matéria prima no campo será de R$ 50,00 por tonelada para áreas arrendadas e cultivadas pela própria unidade. Sendo assim, com base nos dados contidos na Tabela 1 o custo total por tonelada de cana processada será de R$ 89,00.

Considerando os dados da destilaria em questão, que na safra passada obteve 88 litros de etanol hidratado por tonelada de cana processada, tem-se que o custo de produção por litro de etanol hidratado é de R$ 1,01.

Para o sorgo, os custos do plantio são diferentes da cana, assim como sua produtividade por hectare. A Tabela 2 mostra os custos para a produção de etanol utilizando como matéria prima o sorgo.

Tabela 2. Custos para produção de etanol de sorgo.

Observa-se pelos dados contidos na Tabela 2 que os custos de processamento, administrativos, tributários e fiscais e de CCT foram mantidos iguais ao da cana. Considerando uma produtividade média do sorgo de 45 ton./hectare tem-se que seu custo por tonelada será de R$ 55,50. Levando-se em conta os dados da Tabela 2, o custo total de processamento de uma tonelada de sorgo será de R$ 94,50. Supondo que seja possível obter 50 L de etanol hidratado por tonelada de sorgo processado, o custo de produção por litro de etanol hidratado é de R$ 1,89.

Considerando que nenhuma das premissas adotadas neste trabalho estejam muito fora dos valores médios obtidos nos testes realizados no Brasil, tem-se que o custo do etanol obtido de sorgo é 88 centavos de real superior ao do etanol obtido da cana de açúcar. Além de ser mais elevado, neste patamar de custo é impossível conseguir remuneração adequada do produto final que torne o processo lucrativo.

Outra opção seria a utilização do milho como matéria prima na fabricação de etanol. Considerando que é possível obter 350 L de etanol hidratado por tonelada de milho e que o preço da tonelada de milho esteja por volta de R$ 416,00 (CEPEA), tem-se que o preço da matéria prima por litro de etanol será de R$ 1,19. A Tabela 3 mostra um comparativo de custo entre estas três matérias primas por litro de etanol hidratado produzido.

Tabela 3. Custos da matéria prima por litro de etanol hidratado produzido.

Pelos dados contidos na Tabela 3 é possível observar que o custo com matéria prima na produção de álcool de cana de açúcar é bem inferior aos demais. No entanto, deve-se observar, que para isto ocorrer a produtividade média no cultivo de cana atinja valores próximos das 100 ton. por hectare. A Tabela 4 mostra a variação do custo de matéria prima por litro de etanol produzido para diferentes produtividades agrícola.

Tabela 4. Custos da matéria prima por litro de etanol hidratado produzido para diferentes produtividades agrícola para cana de açúcar considerando uma produção de 88 L de etanol hidratado / ton. de cana.

Outro fator que interfere neste valor é a quantidade de ART (açúcares redutores totais) presente na cana que impacta na quantidade de etanol produzido por tonelada de cana processada. Além disto, deve-se levar em conta que o preço do milho foi obtido pelo CEPEA e representa o preço de mercado do produto. Já os preços da cana de açúcar e do sorgo foram baseados em custos de produção própria.

Do ponto de vista de processo, a utilização de sorgo é mais viável, pois, não exige modificações significativas nas instalações existentes para o processamento de cana de açúcar e gera biomassa que serve como combustível para as caldeiras. Já o milho exige instalações para o preparo e hidrolise do amido e não gera combustível para as caldeiras, tornando necessária a queima de bagaço de cana de reserva, diminuindo a quantidade de energia elétrica que poderia ser produzida para exportação.

Apesar de simples e baseado em premissas que podem conter alguns valores imprecisos, este texto serve como alerta para que as alternativas de matéria prima sejam melhores avaliadas e que a cana de açúcar ainda é a melhor alternativa para a produção de etanol e energia a baixo custo sem a necessidade de utilização de carbono fóssil. Outro ponto importante que deve ser ressaltado é que quanto maior a produtividade agrícola, mais viável se torna o etanol o que implica em afirmar que o investimento com retorno certo é na área agrícola.

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